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A Borboletra Dadá


Estruturada como linguagem,

Projeção do avesso.

Asas de Água e Sonhos:

Velejadora das frestas.

​Deseja vagar:

Soltar-se,

​Entre a que fala

A que escuta,

E a que vaga ~

No olhar de lume

De um flanar.



O Voo da Centelha


Enquanto a-mar-é não secar,

Meu destino é continuar...

Desf’olhando o agora,

Ao farfalhar...


Vaga-lume tecido de brio.

Toda noite me atravessa no rio

Sua voz revira meu leito:

Sem margem, nem imagem.


Só em verso,

Neste estado diverso,

Posso ser nenhuma ~

E todas que eu quiser.


Ser eu sou sempre outra,

No sonho;

E a mesma de sempre,

Na realidade.



💌 Abreijos com lume no volume dos sonhos,

🦋 Rejane Franco 🫶🏽


Comentários

  1. Borboleta Dadá. Es'trutura como linguagem. Ao ler, tive a sensação de que ela não descreve um movimento físico, mas um movimento da alma tentando escapar de si mesma para se encontrar em algo maior.
    Sinto que esse poema é um manifesto sobre o desejo de soltar-se. Muitas vezes nos sentimos presos entre o que dizemos e o que ouvimos, vivendo em um ciclo de expectativas.
    O "olhar de lume" (olhar de fogo, de luz) de quem flana indica que, quando nos permitimos apenas "vagar" — seja num pensamento, numa caminhada ou num sonho —, recuperamos o brilho nos olhos. É uma opinião simples, mas que me tocou: a verdadeira liberdade não é ir para longe, mas saber habitar as frestas do nosso próprio silêncio.
    É um poema que pede uma pausa. Ele não quer ser explicado, quer ser sentido como aquele instante de distração onde a gente finalmente se solta das amarras do cotidiano. Parabéns Rejane.

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    Respostas
    1. Amável Emir,

      Jorge, sua percepção é um feixe de luz que sela o brio desta manhã. Você compreendeu a arquitetura da Borboletra: esse movimento da alma que considera os longes, mas busca as profundidades — o habitar das frestas do silêncio polifônico da própria floresta.

      Saber que o poema lhe pediu uma pausa e foi sentido, para além da explicação, é a ressonância divinal que toda correspondência poética busca. É a beleza ao encontro do "tempo da alma".

      Gratidão por devolver ao meu olhar esse lume e por flanar comigo nesta travessia. O Atelier está aberto, e a manhã saboreada. 🍎♾️💌

      Com devida consideração à misteriosa beleza da vida,

      🦋 Abreijos,

      Rejane Franco 🫶🏽

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  2. "O Voo da Centelha", me tocou de um jeito muito particular. Ele não é apenas sobre o mar ou sobre a noite, mas sobre aquela sensação constante de "vir a ser" que todos nós sentimos, mas raramente conseguimos colocar em palavras.
    O poema é um convite para aceitarmos nossa dualidade. Ele me fez pensar que, embora a realidade nos mantenha no chão, é nessa "centelha" do sonho e da poesia que a gente realmente encontra a liberdade para ser o que quiser. É simples, mas tem uma profundidade que faz a gente querer reler para ver se "pesca" mais algum sentimento escondido entre as rimas.
    É uma leitura que acolhe quem se sente um pouco "sem margem" no mundo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caríssimo Emir,

      ​Jorge, seu comentário é de uma beleza tocante ao "tempo da alma", que não corre como o do relógio, mas amadurece como o fruto na árvore. Esse tempo de compreensão é o que permite a metamorfose da Borboletra: da solidão de quem escreve e nada compreende à “solidão acompanhada” de quem lê com máxima consideração.

      ​Que texto magnífico! Faz-me lembrar Rilke, ele é, talvez, o guardião-mor dessa arquitetura do jogo poÉtico da correspondência entre autores. Quando ele diz que “o amor consiste em duas solidões que se protegem, se limitam e se saúdam”, ele está a confirmar, para mim, que todos deveriam buscar uma atividade semelhante à do poeta. Quiçá. O jogo colaborativo e solidário de correspondências de textos poÉticos; justo o que estamos desfrutando.

      ​Ao trazer Rilke à minha resposta, estou buscando transformar a "solidão acompanhada" no solo firme onde a Borboletra pode pousar. Não é uma solidão vazia, mas uma solidão de presença plena — onde o "eu" e o "outro" (ou o poeta e sua voz) coabitam o mesmo parque sem se invadirem.

      ​Apostando que essa referência sele nossa Conversa-viva com um s-elo da estirpe de Eros. O que oferece, para nós, não apenas graças, mas uma lente significante para entendermos como a alma flana: protegida por esse Amor-leitor que compreende até a última tônica das pedrinhas.

      ​O tripé — arte, verdade e ficção — agora ganha a lança de Rilke que fura o alvo na potência da flecha ligeira. Em resposta, para cruzar do aro ao oceano do silêncio e chegar no lado outro. Eis o desafio: Como tocar no Outro?

      ​Saudações,
      Abreijos!

      ​Seguimos nesse brio, rumo às sete eternidades 🍎🦋♾️

      Rejane Franco 🫶🏽

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