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A URGÊNCIA DA ARTE


PRELÚDIO: O PICTOGRAMA

(Imagem 1: Pintura Abstrata / Tablado)

CENA I

Vejo uma pintura abstrata, um verdadeiro palco inspirador para o meu imaginário. Sobre esse tablado encontra-se um fundo colorido e texturizado, com material suficiente para criar todo um cenário: a ponte-palavra para a passagem do poema.

Sob essa tela, há o invisível tripé portátil que levo comigo onde eu for. Seus três pilares inseparáveis são fixados por uma báscula de brio: Arte, Verdade, Amor.


Estação Meteorológica do Litoral da Alma

Condições do Espaço-Tempo de criar, para depois dizer:

O Enigma no Tanque: No "instante-já", apresenta-se na telinha da mente a cena das mulheres no tanque, trazendo a Água dinamizada do sonho. Não é uma abstração; é o que permite lavar a roupa e a alma ao mesmo tempo. Elas são o nosso barômetro: confirmam que o sonho é o solvente universal que faxina a mente e limpa o cisco da visão.

A Frequência It-It: O som do canal de ligação entre a escuta e a voz. Um sopro vindo das origens, rompendo o silêncio milenar. Qual será o limite da resiliência humana diante da opressão? O silêncio não se quebra por ruído, mas pelo It-It — o som de reconhecimento das dores que se espelham.

(Saudação ao "instante-já" de Clarice Lispector; autora capaz de fazer realidades de chumbo virarem luminosidades de b-rio.)

Quando as luzes da ribalta se acendem, apostamos que a gravidade do chumbo desiste, por um segundo, de pesar para tornar-se suporte. O sopro da "alma" transborda: deixá-la de fora é o gesto mais poético de todos. A alma é o que sobra quando o poema termina e o silêncio começa a ecoar.

Lá, onde nem mesmo o vento é confiável, as mulheres arriscam-se a soprar poesia umas para as outras...

Considerando a órbita do objeto causa do desejo, a confirmar que a poesia percebe a luz que o objeto emite enquanto gira ao nosso redor.

​O ItIt é a nomiada frequência rádio dessa órbita.


Landai-Manifestante

(Ligando a minha voz à voz das mulheres que, através dos séculos, usaram a brevidade para dizer o indizível. É a nossa “esquisitice” que sobrevive à opressão.)

A precisão ligada à urgência da arte: exatamente 17 palavras formam o corpo dessa pequena morada das Mulheres Senhoras do próprio Deserto.

O

Nosso

It

É

Pelo

Chocolate,

Pela

Doçura

E

Pela

Palavra

Viva

Que

Impede

O

Retiro

Infinito.

(deixando a “alma” como o sopro que transborda os lim-it-es no It)


NOTA VIRTUOSA

O poema acima é uma coluna que religa o chão ao sonho; uma prece. Sua forma remete aos Landais: cantos das mulheres da tribo Pashtun, curtos como um suspiro ou um grito de urgência. No ciclo circadiano da vida, elas transformam o chumbo em brio. Diante da emoção, as monções do Nilo — o rio das voltas — volta a fluir. Ao menos no instante, já é o bastante para continuar...


CENA II: A NARRATIVA VISIVA

(Imagem 2: A Macro-Foto de Satélite)

O Cenário: A imensidão geológica. À esquerda, o deserto Pashtun; à direita, a transição para o Litoral da Alma. O território enigmático do Perlaboratório.

Os Personagens: O barbante rústico é a “palavra viva” que traça a senda. Sobre ele, caravanas de dromedários e caravelas de lume. São micro-manifestantes movendo-se na urgência e na doçura.

A Dramaturgia: No canto inferior direito, o barbante se desfaz em uma borboleta azul. A lagarta oprimida transformou-se no sopro de vida. O It-It pulsa agora na onomatopeia da borboleta, rompendo o silêncio milenar.


EPÍLOGO 

O que pode a arte?

Talvez possamos dizer, de mãos dadas com os Artistas, que a arte vem cumprindo a função de uma espécie de curativo do vazio; essa ferida que não cicatriza, desde a tenra infância da humanidade.

Abreijos com sensação, pulsação, coração e coragem na travessia dos desertos, minh'alma...

E como são grandes as almas desertas!

Reportagem de: Rejane Franco 🫶🏽 🦋

(A estrada continua nua, depois do amor, ao amanhecer...)


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