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A Borboletra e o seu Flâneur Navegando pelo Litoral da Alma (Conversa-viva)

::Quando a Conversa Começa: Trilha Sonora ao Campo Onírico::

Escuto as palavras conversando entre elas... Dizem, para mim, que são nossas estrelas mais próximas, sempre crescendo às margens dos rios dos desejos...
Espelhadas no brio veem, em si mesmas, rios de flores do Campo de-lírios, a re-cor-dar que a poesia está em tudo; então, na vida também.
Fazem-me re-reparar de verdade, que é preciso prestar bastante atenção; que o necessário é criar a própria vida, a partir do tecido dos sonhos já sonhados.

IMAGEM I: O ENCONTRO
(Poemas para ler no vai-vém do aro do aroma-amora)

Acordei: a cor dei...
Amar é dar cor, ação – coração –
Para quem não quer.
~
A Borboletra ruma e arruma a casa, o jardim, o campo, o palco ao sonho, alinha a asa e o leito ao amor eleito, tudo do seu jeito, e vai indo lindo pelo palíndromo comovente do aro do aroma da campina...
Na canoa a raiar o céu da cor da graça que, em si, incide em mim.
~
Invento
O tablado talhado
Onde o rio se apresenta
Todo m’olhado
À flor que lhe sorrio.
~
O rio sacode e lança o cenário,
A flor lhe acena da ribanceira,
Solta uma carta à água viva, ruma a pétala ao olhar do seu Flâneur,
E baila segura na mão da poesia...
~
Entre as nuvens e o chão,
O Rio Neblina lança seus versos
Da fresta à floresta:
O orvalho do enigma;
A fantasia da festa que resta a rodar, num dueto com o vento;
Os trajes da história já às franjas da memória...
Nesse bamboleio leio a lã da trajetória estendida e mais além,
O bambolê é o pórtico da senda que me enlaça e atravessa,
Me veste e desnuda...
~
Como-vida
Rodopiando numa fita solta do sol,
Investindo na topologia,
Vou despindo sentidos que não me fazem sonhar,
Não ando nua.
E assim como a Terra erra
Sou errante
Vestida de nuvens.
Sem rastro de fumaça,
O astro se refaz,
Em seu ultraleve flanar.

IMAGEM II: O POEMAR

Navegar é o elã
Da própria manhã,
Nem sempre clara.
Mas sempre manhã.
~
O despertar:
A rã salta da pedra,
A alma gravita.
~
Vertigem:
Flanando numa vertiginosa fenda sobre a complexa polifonia do mundo,
De cada poro meu ecoa um sopro de vida...
O sol, com suas mãos de pluma, faz da minha pele sua flor.
~
A poesia é a moldura maleável de minha alma de Água e Sonho e o meu “esterno significante” é um verdadeiro colosso: o que está entre o fora que retumba dentro, o que está aqui dentro e transborda no poeMar...

IMAGEM III: O BAMBOLEIO 

O segredo da flor não é o desabrochar, mas a coragem de ser raiz no escuro para poder ser luz no aberto.

~

O verdadeiro encontro não é o que nos apresenta o novo, mas o que nos devolve o que sempre fomos e havíamos esquecido na pressa da margem.

~

Quem reconhece o céu no mar, já não caminha sobre a terra; navega sobre o próprio b-rio, onde o 'isso' é a considerável bússola e o 'poético' é o destino.

~

Quando a Arte encontra o Axé no altar do Amor, a alma deixa de buscar o porto e descobre que ela é o próprio Oceano.

~

🦋 Voltaremos pelo rio das voltas, até breve!

Com b-rio, afeto e transbordante de poemas,

Rejane Franco – Litoral da Alma
(Navegando em Bamboletra de Pórtico a Pórtico)

Comentários

  1. Este poema, "O ENCONTRO", é uma coreografia verbal. Se o texto anterior era uma cartografia, este é o movimento de quem caminha por esse mapa. Rejane, você utiliza o que chamamos de recursos lúdico-poéticos: trocadilhos, neologismos e uma diagramação que sugere o balanço de um barco ou o girar de um aro. Enquanto o primeiro poema falava sobre o "furo no centro da mandala", este fala sobre o que acontece depois que a poesia abre as asas. Teu texto sobre a fluidez. O sujeito não teme o abismo porque aprendeu que a vida é um "poeMar" e ele, um navegador que se veste de neblina.
    O "despir sentidos que não fazem sonhar" é muito forte. Se você tivesse que escolher uma "bagagem" ou um "sentido" da sua rotina para deixar de lado hoje em nome dessa leveza, qual seria?

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    1. Querido Amigo, Jorge (Emir),

      Seus comentários são fontes de alegria renovável para mim. Sua leitura é o próprio Axé da correspondência! Você percebeu que troquei o mapa pelo passo, e que o ‘furo no centro’ agora é o pórtico por onde a minha Borboletra respira.

      Você me pergunta sobre a 'bagagem' a ser deixada no cais...

      Se hoje eu tivesse que despir um sentido da rotina em nome dessa leveza, eu deixaria para trás a Urgência da Compreensão. Aquela pressa de dar nomes antes de sentir; aquele vício de querer que o mistério caiba na palma da mão.

      Hoje, escolho deixar de lado a ‘bagagem’ do Controle. Deixo no porto a necessidade de saber onde o rio faz a curva. Prefiro habitar o ‘vagar’ de quem se veste de neblina e descobre que, no poeMar, a única bússola que não falha é a do mais
      n-obre condutor: o Fiat Lux do Amor que descobre-se ao a-mar...

      Gratidão por ser esse Flâneur atento ao meu Litoral! 🫶🏽

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  2. Rejane, é interessante que "O POEMAR", funciona como a conclusão de uma trilogia existencial (acredito). Se os poemas anteriores tratavam da gramática e do movimento, este foca no impulso vital (o elã) e na fronteira entre o eu e o mundo. O poema fecha o ciclo reafirmando que o ato de escrever (ou de viver poeticamente) é o que permite equilibrar a pressão do mundo exterior com a vastidão do mundo interno, ou seja, o "poeMar" é o destino final de toda alma que se recusa a ser apenas um "frasco". A imagem da poesia, sugere que podemos dar forma à nossa dor e aos nossos sonhos sem nos tornarmos rígidos ou quebradiços.

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    1. 💌 Jorge,

      Que mar-av-ilha receber este sopro de vida vindo das suas origens de leitor atento! Você descortinou o horizonte do meu Litoral da Alma com uma alvorada de beleza que me co-move. A beleza não foi inventada agora; ela já morava no seu olhar.

      Ao identificar essa ‘trilogia existencial’, você deu nome ao meu próprio caminhar: da gramática que me estruturava ao movimento que me lançava, enfim chego ao PoeMar. É nele, nesse elã vital, que aprendi a recusar o destino de ‘frasco’ para aceitar o destino de Vão — esse espaço onde nada é em vão, o eu e o mundo se encontram em pleno bambo-leio.

      Saber que você percebeu a busca por uma forma que acolha a dor e o sonho sem rigidez é, para mim, o verdadeiro porto de b-rio. O seu comentário não é apenas uma leitura; é uma pro-visão que alimenta a minha caminhada e confirma que a beleza, de fato, mora no reencontro dos olhares poÉticos.

      Grata por ser essa centelha de luz no meu ponto de bordado. Seguimos no indo e vindo deste amar-é infinito.✨🫶🏽 ✨

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    2. 💌Ao Jorge (Emir), meu Amigo Flâneur de voltas,

      Quero redobrar o meu agradecimento com uma luz que agora descortina o meu próprio sentir. Ao ler as suas pro-visões, a memória buscou o brio de Michel de Montaigne quando tentava explicar o inexplicável de sua amizade com La Boétie.

      Se hoje me perguntassem por que este nosso encontro no PoeMar nos atravessa com tamanha força de vida, eu parafrasearia o mestre para dizer apenas: — 'Porque era ele (o Poeta), porque era eu (a Borboletra)'.

      É nesse 'entre' de pórtico a pórtico que a beleza transcende o nada para se reencontrar no bom olhar do outro.

      Quem se deixa lavar pela Água do poeMar, descobre que o verdadeiro abrigo é o Amor-Amigo.

      Abreijos de pórtico a pórtico e luminosidades 🫶🏽

      Rejane (A Borboletra)

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  3. Rejane, no meu humilde olhar, "O BAMBOLEIO", funciona como uma síntese de toda a jornada percorrida. Ele abandona a ansiedade da busca para celebrar a chegada ao centro de si mesmo. O título nos remete ao equilíbrio: não é uma rigidez estática, mas o movimento rítmico de quem sabe navegar. A "Borboletra" e a promessa de voltar pelo "rio das voltas" reforça a ideia de que a vida é cíclica. A poesia não é uma despedida, mas um "até breve" de quem aprendeu que transbordar é a única forma de não transbordar-se (no sentido de perder-se).
    Este poema parece ser um manifesto de alguém que parou de lutar contra a maré para se tornar a própria água.
    Considerando essa ideia de que a alma "descobre que é o próprio Oceano", em que área da sua vida você sente que ainda está procurando por um "porto" em vez de confiar na sua própria imensidão? Fica a reflexão.

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    Respostas
    1. Caríssimo Jorge, que leitura generosa!

      Você tocou no ponto central: o Bamboleio é a minha ginga, meu vórtice de equilíbrio sobre o vácuo. Nessa fricção, a primeira letra bailarina que acende chama outras... é o balé das estrelas sobre mim e o Oceano dentro de mim.

      Sobre a sua reflexão: na verdade, eu não confio; eu aposto. Aposto que a imensidão não foi inventada agora; ela já morava no seu olhar tridimensional, trilegal. Aposto na mão da poesia como um dia apostei na mão de minha mãe musicista e no pilar monumental que o meu pai — conhecido pelo sobrenome Franco — foi para mim. Nasci para ser Franca, e a poesia é a linguagem diplomática reconhecida nos portos do Litoral da Alma. Estou condenada a ser livre, e a liberdade é a livre expressão dessa minha herança paterna.

      Quanto ao 'porto', sigo com o olhar de um flâneur criança que mal está chegando e já tem que partir, sabendo tão pouquinho deste mundo, do outro e de mim mesma. Ainda não sei se quero me demorar num porto fixo... prefiro a liberdade de ser o próprio Oceano, onde o único abrigo real é a própria part-ilha do sentir, dos sentidos sempre em movimento.

      Abreijos de portos, poros, braços abertos para acolher seus textos, sempre tocantes 🫶🏽

      Rejane Franco — Litoral da Alma

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